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História #37 – Coque (R)Existe

Texto por:Cleiton Barros e Maria Peixoto

Por um modo de viver e habitar a cidade, o Coque (R)Existe surgiu, a partir da união de moradores, líderes comunitários, organizações, instituições, centros de ensino, movimentos e ativistas, da própria comunidade ou de fora. Produzimos juntos um evento no dia 4 de agosto deste ano, que movimentou a comunidade, realizando atividades em vários polos simultaneamente, reunindo atividades das mais diversas: exibição de vídeos, rodas de debate, oficinas literárias, meditação coletiva, shows. Tudo com o objetivo de fazer pulsar a comunidade a partir do que ela possui e convidando as pessoas da cidade a participar, a mudar suas rotas e adentrar o bairro. Acontece que, formado o coletivo para mover o evento, resolvemos permanecer atuando juntos, já que a ameaça à comunidade é premente e o desejo de fazer prevalecer o direito à moradia e de morar numa cidade mais justa é de todos.

A comunidade do Coque, localizada em área central de Recife, foi erguida sobre o mangue, assim como grande parte da cidade. Foi aterrada pelos próprios moradores, que traziam o lixo da cidade para dar solidez aos terrenos alagados. Ali, foi o único local onde a maioria daquelas pessoas, vindas do interior do estado, conseguiram se instalar. Os moradores antigos contam que desde o começo foi preciso muita resistência para ficar ali. Pois, logo quando o poder público se deu conta de quão estratégica era aquela área, no centro de Recife, começaram-se as tentativas de despejo. Para permanecer, os moradores construíam e reconstruíam seus barracos. Era o poder público derrubando de dia e eles construindo de noite.

Décadas se passaram e pouca coisa mudou, a comunidade, hoje com 40 mil habitantes continua em situação precária de urbanização e permanece sofrendo as ameaças de expulsão. Se algo mudou, foi o silêncio com o qual as novas investidas contra o Coque vem sendo tramadas. O silêncio e a dimensão dessas investidas, que, aos poucos, buscam ir capturando o terreno, lote a lote.

Uma das lutas que a comunidade conquistou foi se tornar Zeis (Zona Especial de Interesse Social), o que garante a esses territórios que se dê privilégio às moradias populares, o que deveria lhes defender da especulação imobiliária. Porém, não isso que vem acontecendo. O Coque já perdeu 51% de seu território, centenas de moradores tiveram que se mudar para áreas distantes da cidade. E hoje, estão cada vez mais ameaçados. Seja por obras de terceiros, o que fere a lei de Zeis, seja por obras ditas de “interesse público”, que não se preocupam com a melhoria da própria comunidade. No Coque, o Estado só pisa para desapropriar as pessoas – diz Cleiton Barros, um dos moradores, integrante do Coque (R)Existe.

Foi pensando em todas essas questões que surgiu o Coque (R)Existe, com o intuito de dar visibilidade ao que vem acontecendo com a comunidade do Coque, para disputar politicamente, pelo direito dos moradores de permanecerem em seus lares, lugares que construíram com as próprias mãos, onde construíram suas histórias.

Para o poder público, passar um trator em cima das casas dos moradores do bairro é coisa comum, não fere nenhum princípio ético. Para nós, não. A gente sabe que as casas não são apenas de tijolos, mas naquelas paredes estão impregnadas as memórias dos moradores, são seus lares, “o único bem que possuem”, como ressalta a moradora Josedete. É pelo vínculo que tecemos com os moradores, por ouvir suas dores que sabemos a importância que a comunidade tem para elas. E nos apropriamos de um senso de comunidade, mesmo aqueles que não moram de fato lá.

A ideia inicial era que Coque (R)Existe fosse um evento, um circuito, a continuidade de um processo que já havíamos iniciado há mais de sete anos na comunidade do Coque através da Rede Coque Vive. Esta rede era composta pelo Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), coletivo de jovens da comunidade ligados ao rock; o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis (NEIMFA), associação presente na comunidade há mais de vinte e cinco anos e que realiza atividades formativas com pessoas de todas as idades; e um grupo de jovens universitários agrupados no projeto de extensão Coque Vive. Essa rede pensou o Circuito Coque (R)Existe como um evento que daria continuidade aos trabalhos que já desenvolviam com o objetivo de: (a) questionar a representação da comunidade do Coque como lugar de violência e morte; (b) dar visibilidade ao Coque como lugar que pode oferecer coisas boas ao resto da cidade; e (c) questionar as barreiras que distanciam os moradores do Coque dos demais habitantes do Recife, convidando pessoas de fora a participarem. O nome do evento seria Ocupe Coque, na esteira dos diversos “ocupes” que vinha conhecendo no Brasil e no mundo (destaque para o Ocupe Estelita, ocorrido mais perto de nós e que teve a participação de alguns coletivos da comunidade do Coque). Mas esse nome não cabia na realidade que se apresentava. Primeiro porque o Coque já é ocupado por mais de quarenta mil moradores, que tem suas demandas e sonhos próprios. Segundo, porque a comunidade já tinha uma história de luta e resistência política com dinâmicas próprias, com mais de quarenta anos de movimentos sociais. A expressão Coque (R)Existe surgiu dessa perspectiva, de falar da resistência política da comunidade sem separar esses processos da sua existência concreta e cotidiana.

Assim, o Coque (R)Existe é um grupo de pessoas preocupadas em preservar o direito à moradia e da Zeis, o direito à dignidade da pessoa humana. Somos gente que deseja “ser pequena”, que se engaja na disputa pelo direito à cidade, não por um desejo de poder, mas pelo amor e vínculo com a comunidade. Como diz um dos integrantes, João Vale, “que o poder nunca surja para nós como uma opção, que sejamos sempre menores. Que as conquistas nunca sejam nossas, no fundo. Que tudo só se faça sentido na amizade e na incorporação do que se sente”.

O Coque (R)Existe continua acontecendo: nas reivindicações sobre o direito a moradia que vimos fazendo; no questionamento da doação ilegal de terrenos da comunidade para a construção de um Polo Jurídico; nos processos de mobilização da comunidade para estarmos juntos defendendo nosso direito de permanecer na terra que construímos; no questionamento de um viário de acesso ao TI Joana Bezerra que desconsiderava a presença dos moradores da região; na produção de vídeos que escancaram a arbitrariedade com que os governos conduzem processos de indenização na comunidade; nos processos formativos que enfatizam o pertencimento dos mais novos e a memória dos mais velhos moradores da comunidade; e nas muitas outras ações políticas que estamos realizando juntos. Mas também nos muitos amigos que conseguimos unir nesse processo; nos vínculos que estamos produzindo com as pessoas diretamente afetadas pelas ações violentas dos governos; nos afetos que se produzem cada vez que nossos vídeos são exibidos; em novos modos de fazer política enfatizando a presença, a proximidade, o vínculo, a amizade, o amor…

O que estamos chamando agora de Rede Coque (R)Existe, formada por mais de vinte e cinco coletivos da sociedade civil de dentro e de fora da comunidade, não é uma instituição, não tem identidade jurídica, não concorrerá a projetos de financiamento, não tem vinculação ou pretensões políticas partidárias, não serve de plataforma para nenhum movimento partidário. Coque (R)Existe não tem unidade. É uma multidão! Só pôde acontecer quando essa multiplicidade de atores se encontraram e dissolveram um pouco as fronteiras que separavam os de dentro e os de fora da comunidade. Nesse processo puderam dizer: o Coque é a cidade…

Para saber mais, acessem fanpage no Facebook do CoqueRExiste.

 

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